Pai,
Olá
papai, lembra de mim? Acho que você me viu quando eu tinha uns seis ou sete
meses, eu tenho dezessete anos agora. Eu cresci, me tornei uma garota forte,
cheia de orgulho, mamãe sempre fez de tudo para não me decepcionar. Ela foi pai
e mãe por muito tempo, até o dia em que eu disse a ela para parar, um pai nunca
me fez falta. Você nunca me fez falta. Eu sei que você não se arrepende, que
nunca pensou em correr atrás de mim, eu sei que nunca me amou, apesar de nunca
ter te visto, eu te conheço. Somos sangue do mesmo sangue, eu tenho seu
sobrenome, mamãe sempre diz que sou idêntica a você, não tome isso como um
elogio, eu odeio ser idêntica a você. Quando eu era uma criancinha
ingênua, que não media as consequências das minhas palavras e de meus atos,
perdia dias e dias chorando por que você nunca esteve do meu lado, lembro com
dor de todas as vezes que vi mamãe chorar por que eu perguntava sobre você,
como eu fui tola. Você não presta. Você fez a mesma coisa com ele, eu o
conheci, sabia? Meu meio-irmão mais velho. Mais uma vítima do teu abandono. Ele
é um homem agora, uma ótima pessoa. E ele tem uma filha linda, uma esposa
maravilhosa, e uma família. Espero que um dia você olhe para nós e perceba tudo
que perdeu, mas se sinta realizado, pois trouxe ao mundo duas pessoas
maravilhosas. Você foi o primeiro homem a me decepcionar. Temo que seja por
isso que eu não consiga me dar bem com os homens que conheço ao longo de minha
vida. Caramba, pai! Era para você ser meu herói sem capa, meu exemplo, os
braços para os quais eu iria correr quando sentisse medo. Pois bem, era para
ser você. Mas não foi. Cresci sem a sua presença, e isso me fortaleceu. Não dou
confiança para qualquer um, não abro meu coração para o primeiro que pedir a
chave, eu não quero que ele seja como você, quero para mim alguém melhor,
alguém que vai ficar ao meu lado independente da crise que enfrentarmos, papai,
eu rezo para que meus filhos não tenham que passar pelo que eu passei, mas se
for esse o destino, eu estarei ao lado deles, como mamãe esteve e ainda está.
Ela foi mais homem do que você jamais foi um dia. Não te culpo por ter me
abandonado, não guardo rancor. Eu desejo que você seja feliz, com a sua nova
família. Soube que a minha meia-irmã, a sua caçula, nasceu no dia vinte de
julho também, você não acha engraçado? Você se lembra de mim em cada
aniversário dela? Eu sinceramente não sei, e nem pretendo saber. Eu só tenho um
pedido a lhe fazer. Papai, prometa que não vai fazer com eles o que fez comigo,
eles já se apegaram demais a você, não os decepcione também.
- Anna Carolina Miotto Freire.

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